Uol jogos entrevista Zangado

Com 1,9 milhão de fãs, youtuber mascarado alterna entre games e engenharia

Aos 27 anos, Zangado é dono de um dos canais mais acessados por brasileiros no YouTube: são cerca de 1,9 milhão de assinantes. Em eventos, centenas de fãs esperam por horas em filas apenas para pegar um autógrafo seu. Ele conversa com seus seguidores e até mesmo dá conselhos para suas vidas amorosas.

Mas Zangado é apenas uma máscara. O homem por trás dela, cuiabano que joga games desde os tempos do Atari, afirma ser extremamente tímido e não saber lidar muito bem com a exposição. Por isso, esconde seu nome real e seu rosto em todos os vídeos que produz.

Quando me encontra para conversar ao lado de uma piscina de hotel em São Paulo, mesmo longe de qualquer câmera e ciente de que eu não tenho a intenção de revelar sua identidade, ele prefere usar óculos escuros. “Eu sou um cara meio antissocial mesmo”, afirma.

Meio engenheiro civil, meio Zangado, ele leva uma ‘vida dupla’: seu trabalho diário é na construtora do pai, mas quando o dever chama (leia-se: um novo jogo é lançado), ele veste sua máscara e torna-se o youtuber cujos vídeos ultrapassam com tranquilidade a marca das 100 mil visualizações em apenas um dia.

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Começo humilde

“Quando criança, nunca tive mesada. Economizava moedas do troco do pão para comprar minhas fitas. Na época, a gente não tinha internet para saber se um jogo era bom, e não havia sensação pior do que gastar as economias com um game ruim”, relembra Zangado. “Quando comprei um Xbox 360, peguei também ‘Golden Axe: Beast Rider’ – que parecia ótimo no trailer, mas era uma porcaria”.

“Eu não tinha nem câmera, mas precisava falar mal do jogo em um vídeo. Foi isso que despertou em mim o interesse pelo YouTube. Eu precisava queimar o filme daquele game”.

Chamado pelos colegas de faculdade de Zangado por “não ter paciência alguma” e “viver estressado”, ele contou com a ajuda de um amigo para fazer seus primeiros vídeos. “Quando o canal começou a fazer sucesso, com uns mil inscritos na época, me pediram pra fazer um vídeo em que eu aparecesse. Mas eu não queria. Então meu amigo me comprou uma máscara de pano ridícula, de R$ 1, e eu usei. E deu certo”, conta.

Nascia ali o Zangado: um personagem que atraía mais seguidores a cada dia por seu ar misterioso, e mantinha a vida diária do autor intacta. “Eu fazia faculdade, e não queria que isso interferisse no meu trabalho. Não queria que alguém me diminuísse por me associar apenas com jogos e achar que eu era um ‘molecão’”, afirma.

“Hoje em dia, a máscara tem vida própria. Tem gente que pede para eu tirá-la, mas a maioria não quer isso. Se eu tirar, acaba a graça”.

A vida de Zangado

Descrevendo sua rotina, Zangado revela que tem dois tipos de dias: aqueles em que é engenheiro, e aqueles em que é youtuber.

“Quando compro games novos, jogo imediatamente. Gravo o vídeo, edito, renderizo e faço upload pro YouTube”, explica. “Já quando vou fazer análise, o processo é bem mais complicado. Vou jogando e fazendo anotações em um caderninho ou então gravando falas em meu celular. Depois pesquiso mais sobre o tema, e tento colocar o máximo de informações possíveis nos vídeos. É um trabalho”.

“Mas há os dias em que meu pai precisa de mim na construtora, e são esses os dias em que eu não publico nada. Quando não tenho tempo, não há o que fazer”.

Lembrando de seus primeiros dias de youtuber, Zangado revela que não demorava mais do que 20 minutos para finalizar um vídeo. “Eu não editava nada. Se engasgasse, ia para o ar daquele jeito. Hoje em dia, não pode ser mais assim. Precisa ter qualidade”.

“Se meu pai – e chefe – não me desse liberdade para fazer o que eu faço, não teria como, porque ser youtuber acaba virando um trabalho”, diz.

Motivos do sucesso

Zangado acredita que o principal motivo que o fez brilhar em meio a tantos concorrentes é a atenção que ele dá aos fãs. “Eu tenho 1,9 milhão de seguidores. Agora imagina: um cara me manda uma mensagem particular e eu respondo. O que isso significa para um fã? Ele vai me seguir, curtir meu trabalho e não vai esquecer de mim nunca”, afirma.

“Uma vez veio uma garota me dizer que eu tinha ajudado a melhorar sua vida. Ela se achava muito feia, e me ouviu dizendo em um vídeo que a beleza exterior não importava – que uma hora ela desaparecia. E ela, emocionada, me disse que isso fez ela pensar e mudar um pouco a cabeça dela”, relembra.

Mas ele admite: há muitos seguidores que nunca sequer tentaram interagir com ele. “Essas pessoas me seguem por causa do conteúdo. Eu sempre tento fazer vídeos diferentes, que falem de várias coisas – não só de games. Tem muita gente que nem é gamer e me segue. Tem fãs de quadrinhos que me acompanham por causa de um vídeo de mais de uma hora que fiz sobre o jogo do Homem-Aranha”.

Objetivos

Ao ser questionado sobre seus planos de longo prazo, Zangado faz questão de salientar que vê a fama na internet como algo passageiro. “Cada um tem seu tempo”, diz. “Teve gente que chegou a me passar em número de inscrições e depois sumiu. Porque as pessoas cansam dessas personalidades”.

O youtuber quer manter-se relevante pelo maior tempo que conseguir, mas não pretende abandonar seu trabalho como engenheiro.

“O que eu quero com meus vídeos é deixar uma marca na vida das pessoas. Quero que se lembrem de mim daqui a cinco, dez anos”, diz. “Eu digo isso porque odeio alienação: me irrita muito ver um jovem de 13 anos que tem celular, videogame, escola e não sabe escrever. Então tento passar um pouco de informação em meus vídeos, por menor que ela seja. E quero mudar a vida de alguns desses seguidores”.

“Em um vídeo sobre ‘Senhor dos Anéis’, falo dos games, dos filmes, dos livros. E imagina se instigo um seguidor a ler o livro? Só isso já vai melhorar muito a escrita dele. Isso é fundamental”.

Dinheiro

O site Socialblade, que gera estatísticas sobre canais no YouTube com base em números de visitas, comentários e inscrições, estima que Zangado recebe entre US$ 5 e 35 mil por mês com seus vídeos. Mas ele nega isso.

“Não chega perto disso”, diz, rindo – mas sem revelar as somas reais. “Eu tenho, sim, renda com o YouTube. Todo mundo sabe disso. Mas eu também tenho o dinheiro que recebo como engenheiro, e vivo das duas fontes”.

Zangado se mostra muito mais confortável compartilhando histórias de seus fãs do que falando sobre dinheiro ou seus planos pessoais para o futuro. Quando questionado sobre o que ele quer fazer em 2015, ele revela: “Quero ir para eventos em outras cidades do Brasil, conhecer seguidores que não podem ir para as grandes feiras em São Paulo”.

Assim, sem nunca tirar sua máscara, Zangado quer utilizar seus vídeos para marcar as vidas de ainda mais seguidores.

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