Desintoxicado, Eminem retorna às paradas

Caretão

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eminemNo final de dezembro de 2007, Marshall Mathers, mais conhecido pelo seu pseudônimo no rap, Eminem, estava deprimido, não conseguia compor e vivia sob o efeito do consumo excessivo de pílulas e opiáceos quando sofreu uma overdose causada por pílulas azuis e desconhecidas que alguém lhe deu de presente – elas continham metadona.

O cantor, que tem milhões de discos vendidos, desabou no banheiro de sua casa, e os comunicados referentes à sua hospitalização de emergência e tratamento de desintoxicação encobriram o problema, afirmando que ele estava sofrendo de uma pneumonia. Passado um mês, Mathers estava de novo entregue ao vício.

Mas a overdose serviu para assustá-lo, e no começo do ano passado ele se internou e concluiu uma reabilitação, aderindo a um programa de acompanhamento para viciados que inclui reuniões com outros antigos usuários de drogas, um padrinho e a assistência de um terapeuta. Mathers, 36, diz que está sóbrio desde 20 de abril de 2008.

Longe de ocultar sua batalha contra o vício, ele está fazendo dela a peça central de seu retorno ao disco. A capa do álbum Relapse reincidente, seu primeiro disco de composições inéditas desde 2004, mostra seu rosto formado por pílulas, e em algumas das canções ele fala com a intensidade típica do rap sobre a maneira pela qual as drogas quase o destruíram.

No restante do álbum, Eminem retoma, ou reincide em, seu principal alter ego, Slim Shady: uma persona arrogante, fanfarrona, paranóica, homófoba, perseguidora de celebridades, estupradora compulsiva e assassina serial, que explora seus crimes em busca de risadas fáceis e de popularidade junto às massas.

Os quatro álbuns de inéditos anteriores de Eminem para grandes gravadoras – The Slim Shady LP, de 1999; The Marshall Mathers LP, de 2000; The Eminem Show, de 2002; e Encore, de 2004 -venderam cerca de 30 milhões de cópias nos Estados Unidos, de acordo com a Nielsen SoundScan. Relapse adere à fórmula dos discos precedentes: parte verdade e parte ficção, com revelação pessoal e farsa sociopática lado a lado.

"É um disco pesado, é humor negro, é aquilo que Eminem sempre foi", disse Dr. Dre, que produz os discos do rapper há muito tempo. Eminem tem fãs saudosos: Crack a Bottle, o primeiro single do álbum – que conta com a participação especial de Dr. Dre e 50 Cent -, chegou ao número um na parada Hot 100 da Billboard ao ser lançado em fevereiro, com 418 mil downloads vendidos na primeira semana.

Relapse é o mais recente capítulo em uma carreira que tem algo de novela e sempre misturou confissões, melodrama, comédia, horror, provocação à mídia, domínio técnico e hipérbole em escala de tablóide, em todas as frentes. "Não sei se estou me expondo", disse Mathers, de seu estúdio em Detroit. "Estou só contando a verdade e respirando".

Ele fala de forma amistosa e coerente, sem adotar um tom defensivo, e conversa com o zelo de alguém que conseguiu superar um vício, tanto sobre seus passados excessos quanto sobre sua nova clareza e produtividade, e parece realmente uma pessoa que se livrou de um fardo. "Eu era o pior tipo de viciado, o viciado que consegue continuar trabalhando", disse. "Chegou um momento em que eu estava tão afundado no vício que não era capaz de me imaginar fazendo coisa alguma sem usar algum tipo de droga".

Ele tem assistido a vídeos que o mostram no palco e em entrevistas nos dias das drogas, entre os quais uma entrevista à Black Entertainment Television que ele nem mesmo recorda ter gravado. "Eu quero ver as coisas que fazia quando estava usando drogas, porque isso me ajudará a nunca mais voltar a elas", disse.

Nos cinco anos que separam seus dois últimos álbuns, ele trabalhou como produtor, criou bases para outros rappers e ocasionalmente cantou como convidado em trabalhos alheios. Eminem hoje define sua estrofe em Touch Down, uma canção de T.I., um rapper de Atlanta, como "horrível".

Mas no ano passado, apenas dois meses depois de concluir sua desintoxicação, Eminem e Dr. Dre se reuniram em Orlando, na Flórida, para tentar gravar alguma coisa. O rapper estava realizando o que chama de "exercícios mentais", a fim de desbloquear sua capacidade de compor. "Eu enfileirava um monte de palavras e ia lendo a linha, tentando preencher as lacunas e criar alguma coisa que fizesse sentido", ele diz. "Mas por três ou quatro anos, perdi a capacidade de fazê-lo".

Quando ele deixou as drogas, diz, "as rodas começaram a girar de novo". Trabalhando primeiro em Orlando e depois em Detroit, Eminem e Dr. Dre gravaram centenas de trilhas e finalizaram canções suficientes para três discos. Depois, trabalharam com esse material e reduziram o repertório a dois álbuns. Eminem planeja lançar Relapse 2 ainda este ano.

"Quanto mais eu me afundava no vício, menos capaz de exercitar a minha criatividade eu me tornava", ele disse. "Mas quando consegui ficar sóbrio, a criatividade voltou. Em sete meses, realizei muito mais do que conseguiria em três ou quatro anos, se tivesse continuado com as drogas".

Tradução: Paulo Migliacci
 
The New York Times

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