Saiba tudo sobre a vida de um Garoto de programa

Garoto de programa dá detalhes da rotina de quem ganha a vida fácil, como é a vida de um garoto de programa e se tornar um

 Garoto de programa  Saiba tudo sobre a vida de um Garoto de programaComo é a vida de um  Garoto de programa? Sexta-feira. Exatamente na esquina da Praça Serzedelo Correia com a Rua Hilário de Gouveia, em frente ao bar “Passarinho”. Ali se encontrava um grupo de rapazes, com idade variando entre 19 e 30 anos. No início da madrugada, por volta das 23h, já era percebido um enfileiramento de meninos nas grades da praça, que faziam uma discreta algazarra. A fase da adolescência, marcada por questionamentos e frustrações, dava lugar a uma conduta, talvez nem tanto adulta, mas com certeza com mais responsabilidades, principalmente por si próprios.

Eles fumavam cigarros conversavam entusiasticamente sobre qualquer coisa. A maioria exibia músculos muito bem torneados e devidamente tatuados. Vestiam roupas de grife e entravam frequentemente no bar para reparar-se no espelho, a fim de consertar algum fio de cabelo que por ventura se soltara do penteado padrão.

No bar, clientes melancólicos (a maioria aparentando mais de 45 anos) dividiam, de forma espaçada, aquele ambiente típico de mais um boteco da zona sul do Rio. Era nítida a escolha pelos cantos das paredes e o consumo de apenas uma cerveja, que demorava décadas para se findar. Dali, os homens-de-gravata-frouxa, devido ao adiantado da hora e o sentimento de término de mais um dia de trabalho, contemplavam languidamente os meninos, que, aparentemente, não lhes davam muita atenção.

 Garoto de programa – O ritual da negociação

Quanto mais o tempo transcorria, maior se tornava a freqüência (e a ênfase) dos encontros dos olhares entre clientes e os rapazes. Os cochichos entre os jovens se avolumavam de maneira tal, que já era perceptível que o assunto principal dizia respeito ao programa que haveria de ser feito dali a instantes. Até que um homem calvo e com uma barriga protuberante assovia e faz um movimento com as sobrancelhas convidando um deles a se sentar à mesa para um chopp.

Naquele momento, aquela esquina de Copacabana emergia como um ponto de prostituição masculina com toda a sua clareza. Esse primeiro rapaz, ou melhor, seu cliente fora de forma iniciou um efeito dominó de mais uma noite de lucros baseado no sexo pago para os rapazes, que mais tarde, revelaram ser seu ganha-pão. Depois dele, todos os outros se arranjaram, ou pelo menos, começaram o papo para as negociações.

Marcus (nome fictício), 27 anos, há quatro é michê. Contrariando o pressuposto de que a maioria dos garotos de programa mora na Baixada Fluminense e possui baixo nível de escolaridade, Marcus apresentou-se como um atípico profissional da área. Exalando a fragância do perfume importado 212, de Carolina Herrera, Marcus se mostrou bastante comunicativo, extrovertido e disposto a revelar um pouco do submundo dos michês do Rio de Janeiro. Uma extroversão que apontava para o exagero.

A vida de michê

Marcus acabara de retornar de uma viagem ao exterior, onde visitou, por conta da profissão de Garoto de programa , a capital da Espanha, Madrid. Ele explicou que os programas feitos no exterior são mais valorizados do que no Brasil. O valor tabelado do sexo estrangeiro pode sofrer alteração quando o cliente percebe que o michê é de nacionalidade brasileira, devido ao fetiche bastante difundido internacionalmente da sexualidade aflorada e “sexo-bom-garantido” das mulheres brasileiras, valor que de alguma forma também é transferido aos homens.

Com o montante arrecadado, Marcus comprou um apartamento, que divide com um amigo (também michê), em Copacabana. Além disso, segundo ele, possui um carro e uma namorada que reside em Nova Iorque (EUA). Neste momento, o rapaz exibe sua aliança, que faz questão de enfatizar ser de ouro verdadeiro, selando o compromisso com a menina – que “nem sonha” com a profissão de seu namorado.

Questionado sobre sua orientação sexual, Marcus agiu como a maioria dos homens age quando se é posta em dúvida a masculinidade. “Tá me estranhando, parceiro? Sou homem! Eu transo com outros caras, mas é tudo de forma profissional. Sempre sou ativo nas minhas relações sexuais por dinheiro. Muitos garotos de programa, até mesmo daqui da Serzedelo, fazem as duas coisas: dá e come. Mas aí é mais caro, né? Em média, para que um garoto de programa seja ativo e passivo com um mesmo cliente, ele cobra R$ 600. Tem que ser mais caro, porque aí mexe com a honra do cara, né?”, afirmou Marcus, mais à vontade fora da esquina, já no quiosque da empresa de fast-food “Habbib’s” na Avenida Atlântica.

Tabela de preços de um Garoto de programa

Os preços do programa variam de acordo com a posição (ou posições) que o michê desempenhará, o tipo de sexo (oral, anal, ménage à trois, etc.), local do programa (carro, motel, casa do cliente, etc.) e outros tipos de serviços. Marcus relata, divertidamente, que sua profissão é bastante “diversificada”. Nem sempre um michê quando é contratado desempenha um papel relacionado com o sexo, apenas.

“Nessa vida tem de tudo. Muitos velhos chegam ali no bar, nos convidam para conversar, negociam preço do programa e quando chegamos às suas residências eles começam a chorar. Eles nos contratam como se fôssemos psicólogos. Já ganhei muito dinheiro fácil assim. Eles reclamam da vida, do emprego, dos filhos que já não vêem mais, de traição da esposa… Por uma parte isso é legal porque não tenho que suar a camisa para ganhar o meu!”, disse Marcus, soltando uma gargalhada ao final.

O garoto de programa revelou que a faixa de preços dos meninos da Praça Serzedelo Correia é de R$ 200 a R$ 250, a hora. Como Marcus dissera que não faz programa todos os dias, “porque também é filho de Deus e gosta de ter vários dias livres”, sua renda é um pouco aquém daqueles que se prostituem diariamente. Para ele, esses meninos não tem qualidade de vida e já transformaram sua profissão em vício.

“Eu me prostituo porque gosto de viver bem e sustentar meus caprichos e desejos. Não me vendo pra comer. Simplesmente gosto de viver tranquilamente, sem me preocupar com contas e pouco salário. Com o dinheiro da prostituição, dá pra eu ter uma renda mensal de R$ 4 mil por mês, trabalhando apenas 4 dias na semana. (…) Mas um dia eu penso em sair dessa vida. Estou juntando parte desse dinheiro para abrir uma vidraçaria e uma pizzaria com meu tio”, idealizou Marcus.

O bar

Questionado sobre a possível cumplicidade ou até mesmo o simples conhecimento que aquele era um ponto de garotos de programa, o dono do bar Sr. F. se esquivou do assunto. Disse não saber de nada ou nunca perceber “qualquer coisa de errado em seu bar”. Entretanto, era nítido o vínculo dos meninos com o bar e seu dono: eles entravam e saiam repetidamente sem nada consumir; além de manterem uma conversa amistosa com todos os garçons e com seu F.

“Todo mundo aqui sabe de tudo que ocorre no bar e sabe a procedência de todos os meninos. Seu F. é parceiro. Ele fecha junto com a gente. Ele sabe que somos nós que damos o movimento pro estabelecimento; se sairmos daqui, ele vai deixar de lucrar. Além disso, já o vi contratar os serviços de vários amigos meus. Ele tá envolvido com o esquema até o último fio de cabelo!”, informou Marcus.

Violência e michês

Questionado sobre os mais variados crimes propagados pela mídia e pelos manuais das agências de turismo gay friendly, como por exemplo o “Boa Noite Cinderela”, Marcus foi à defesa de seus colegas de trabalho. Segundo o michê, muitas vezes os próprios garotos de programa são passados para trás por clientes no momento do afã do gozo sexual e se tornam vítimas de um crime que no imaginário coletivo são eles que cometem.

Diferentemente da cidade de São Paulo, a Polícia Militar parece ter uma relação mais amistosa com os garotos de programa. Na capital paulista, mais especificamente no parque Trianon, michês são diariamente violentados por PMs que fazem a ronda na madrugada da cidade. O ódio é acentuado pela questão da homossexualidade, que é estopim para que os meninos sejam levados para regiões afastadas do centro e violentados fisicamente, com intuito primeiro de humilhar os garotos e, a posteriori, de impossibilitar o trabalho. Qual cliente sentira tesão por um homem cheio de hematomas e com a estética debilitada?

“Aqui no Rio, pelo menos na praça Serzedelo Correia, não acontece isso não. Muito pelo contrário [risos]. Quando os policiais militares passam e olham pra gente já dão logo o sinal de que estão a fim de um programa. Canso de me prostituir com policiais e sempre sou ativo! Os caras pedem coisas bizarras como prender suas mãos na cama com as algemas e enfiar seus cacetes nos seus ânus. A violência aqui é na cama. E eles gostam!”, zombou o michê.

Fonte: Mix Brasil onde você encontra mais sobre a vida de um Garoto de programa

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